A História e Arqueologia do Castelo de São Jorge
Vinte e seis séculos de fortificação contínua num único cume. Um guia cronológico estratificado sobre os povos, as muralhas e as descobertas que fazem do castelo um dos sítios ibéricos com ocupação mais prolongada.
Poucos sítios na Península Ibérica foram ocupados continuamente durante tanto tempo como o cume de São Jorge. O primeiro povoado defensável neste local data de cerca do século VI antes da era comum, e a partir daí a colina foi fortificada, expandida, conquistada, reconstruída, arruinada e restaurada por todas as grandes civilizações que tocaram Lisboa — lusitanos, fenícios, cartagineses, romanos, visigodos, suevos, mouros, cruzados cristãos, reis portugueses medievais, ocupantes espanhóis do século XVI, o grande terramoto de 1755 e, finalmente, um restauro estatal do século XX sob o regime do Estado Novo. O resultado é uma paisagem arqueológica estratificada onde alvenaria mourisca do século XI coexiste com acrescentos cristãos medievais, fundações palacianas do século XVI, danos do terramoto do século XVIII e cantaria de restauro de meados do século XX, tudo visível para quem sabe o que procurar. Este guia de serviço de conciergerie acompanha-o pelo sítio como faria um historiador profissional — cronologicamente, camada por camada, com atenção ao que está documentado em fontes contemporâneas, ao que foi hipoteticamente reconstruído e ao que permanece genuinamente incerto. O objetivo não é memorizar datas, mas dar ao seu olhar a estrutura necessária para ver vinte e seis séculos de construção numa só manhã.
Antes dos Mouros: Olisipo Pré-Romana e Romana
As escavações arqueológicas no cume, mais extensivamente as conduzidas nas décadas de trinta e quarenta sob o arquiteto-arqueólogo Augusto Vieira da Silva e subsequentemente pelo Centro de Arqueologia de Lisboa a partir da década de oitenta, produziram evidências de um povoado fortificado da Idade do Ferro datando de cerca do século VI antes da era comum. Os achados incluem fragmentos de cerâmica, fragmentos de muralhas defensivas e uma cisterna atribuíveis aos povos lusitanos ou aos seus predecessores. As vantagens defensivas naturais da colina — encostas íngremes em três lados e visão desimpedida sobre o Tejo — tornaram-na o local óbvio para um povoado central muito antes da chegada de qualquer dos impérios históricos.
Os romanos, que absorveram a cidade como Olisipo Felicitas Julia no final do século II antes da era comum, fortificaram a colina e utilizaram-na como acrópole urbana. Muralhas de época romana, um quarteirão doméstico com mosaicos preservados e um troço de rua calcetada são visíveis no jardim arqueológico dentro das muralhas interiores, perto da entrada moderna para a exposição permanente. Painéis interpretativos assinalam os principais elementos romanos. A ocupação romana durou mais de cinco séculos — tempo suficiente para deixar um ambiente construído substancial sob as camadas mouras e cristãs posteriores — e o traçado urbano moderno da parte mais baixa da cidade ainda segue, em alguns locais, os alinhamentos romanos.
A Cidadela Moura: al-Ushbuna no Século XI
Após a conquista muçulmana da península Ibérica em 711, a cidade passou a ser conhecida em árabe como al-Ushbuna, e o topo da colina foi reconstruído como cidadela da taifa local. A maior parte das muralhas visíveis hoje — as onze torres ligadas por cortinas, a alcáçova interior, as cisternas e os alicerces do palácio do governador — datam, no essencial, do século XI, quando Lisboa era uma cidade fronteiriça da Taifa de Badajoz. A alvenaria apresenta uma mistura característica de taipa, alvenaria de pedra irregular e blocos romanos reutilizados, com os portais em arco de ferradura típicos da arquitectura militar andalusina.
As escavações na zona do palácio interior iniciadas nos anos noventa expuseram os alicerces de um bairro do período mouro, com casas dispostas em torno de pequenos pátios, cisternas comunitárias e uma modesta mesquita, agora apresentados sob protecção para visitação. O bairro oferece uma visão invulgarmente íntima de como viviam efectivamente os habitantes da cidadela: não como soldados em caserna, mas como uma comunidade urbana densa, com mercados, espaço de oração e casas familiares, tudo disposto no padrão orgânico de vielas estreitas característico das cidades andalusinas na Península Ibérica e no Norte de África.
O santo padroeiro a quem o castelo está hoje dedicado, São Vicente, tem uma história distinta mas ligada: as suas relíquias, segundo a tradição medieval portuguesa, foram trazidas para Lisboa por mar desde o Algarve pouco após a conquista cristã, guiadas por dois corvos — iconografia que se tornou símbolo da cidade de Lisboa. A dedicação da cidadela a São Jorge surgiu mais tarde, em honra dos cavaleiros cruzados que participaram no cerco de 1147. Esta dupla herança santoral — São Vicente como padroeiro da cidade, São Jorge como padroeiro da cidadela — é uma das narrativas religiosas em camadas que o local encerra.
1147: A Conquista por Afonso Henriques e a Segunda Cruzada
O acontecimento determinante na história documentada do castelo é o cerco de Lisboa, de 1 de Julho a 25 de Outubro de 1147, quando as forças sob o comando de Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, apoiadas por uma frota cruzada de navios anglo-normandos, flamengos e renanos desviados da Segunda Cruzada, conquistaram a cidade aos seus defensores muçulmanos. O cerco está documentado com invulgar pormenor pelo clérigo anglo-normando contemporâneo conhecido como o padre Raol, na crónica De Expugnatione Lyxbonensi, Da Conquista de Lisboa — um dos relatos em primeira mão mais ricos de qualquer cerco europeu do século XII.
Os Cruzados haviam feito escala no Porto a caminho da Terra Santa e foram persuadidos a auxiliar o jovem rei português em troca do saque da cidade. O cerco durou dezassete semanas, com a fome e as doenças dentro das muralhas a forçarem finalmente a rendição. Após a capitulação a 25 de Outubro, a cidadela foi rebaptizada em honra de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros cruzados, e gradualmente adaptada como residência régia do novo reino português. A data da conquista é assinalada anualmente no calendário cívico de Lisboa e permanece um dos momentos fundacionais centrais da narrativa nacional portuguesa.
Residência Real, Terramoto e Restauro do Século XX
Desde o reinado de Afonso III, que transferiu a capital portuguesa de Coimbra para Lisboa em meados do século XIII, até à União Ibérica de 1580, que colocou Portugal sob domínio espanhol, o Castelo de São Jorge serviu como principal residência régia. Sucessivos monarcas ampliaram o núcleo mouro com um complexo palaciano cristão conhecido como Paços da Alcáçova, de que hoje subsistem apenas alicerces e alguns tramos de muralha, visíveis na zona arqueológica a nascente das muralhas interiores. As ampliações mais significativas foram realizadas sob D. João I no final do século XIV e D. Manuel I no início do século XVI, quando Portugal estava no auge da sua expansão marítima e a corte exigia espaços cerimoniais à altura.
Após 1580, a corte transferiu-se progressivamente para o Paço da Ribeira, junto ao rio, e o castelo degradou-se em quartel militar e prisão. O grande terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, com o tsunami e incêndios subsequentes, danificou gravemente a cidade alta e pôs efectivamente termo à função residencial do castelo. Durante quase dois séculos, o local serviu de prisão e quartel militar, com grande parte da estrutura medieval obscurecida por acrescentos militares dos séculos XVIII e XIX que os visitantes de hoje não reconheceriam de todo como a cidadela medieval.
Entre finais dos anos trinta e início dos anos quarenta do século XX, sob o regime do Estado Novo, o arquiteto Baltasar de Castro dirigiu uma campanha de restauro de grande envergadura que demoliu a maior parte das intervenções pós-medievais, consolidou as muralhas mouriscas, reconstruiu várias torres segundo uma forma medieval hipotética e criou o atual pátio arborizado de pinheiros e o miradouro panorâmico. O próprio restauro constitui hoje um documento histórico: reflete as preferências nacionalistas de meados do século XX por uma leitura cruzadista e cristã do monumento, sendo atualmente objeto de análise crítica tanto quanto a estrutura medieval que procurou revelar. Os visitantes atentos às diferenças na alvenaria conseguem frequentemente distinguir onde termina a cantaria mourisca original e onde começa a reconstrução do século XX.
Perguntas frequentes
Qual é a antiguidade do Castelo de São Jorge?
A colina tem sido continuamente fortificada há mais de dois mil e quinhentos anos, com vestígios de um povoado da Idade do Ferro datado de cerca do século VI antes da era comum. A cidadela mourisca, cujas muralhas constituem a maior parte das fortificações sobreviventes, remonta ao século XI.
Quem construiu o Castelo de São Jorge?
As muralhas e torres visíveis foram edificadas por governantes muçulmanos da Taifa de Badajoz no século XI, sobre fortificações romanas e pré-romanas anteriores. O paço medieval cristão e o restauro de 1938-40 acrescentaram camadas posteriores.
Quando foi o Castelo de São Jorge conquistado pelos portugueses?
A 25 de outubro de 1147, após um cerco de quatro meses conduzido por D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, apoiado por forças cruzadas da Segunda Cruzada. O acontecimento encontra-se documentado na crónica contemporânea De Expugnatione Lyxbonensi.
Porque se chama São Jorge?
A cidadela foi rebatizada em honra de São Jorge, santo padroeiro dos cavaleiros cruzados que auxiliaram na conquista da cidade em 1147. Anteriormente era conhecida pelo seu nome árabe, como parte de al-Ushbuna.
O Castelo de São Jorge foi um paço real?
Sim, desde meados do século XIII, quando D. Afonso III transferiu a capital para Lisboa, até finais do século XVI, quando a corte se mudou para o Paço da Ribeira, junto ao rio. O complexo palaciano era conhecido como Paços da Alcáçova.
Que danos causou o terramoto de 1755?
O grande terramoto de 1 de Novembro de 1755 danificou gravemente a cidade alta, incluindo grande parte da estrutura medieval e renascentista do palácio do castelo. O local perdeu a sua função residencial e foi reconvertido em quartel militar e prisão.
O que alterou a restauração de 1940?
A restauração de 1938-40, sob a direcção do arquitecto Baltasar de Castro, demoliu a maioria das estruturas militares pós-medievais, consolidou as muralhas mouriscas, reconstruiu várias torres segundo uma forma medieval hipotética e criou o actual pátio ajardinado e o miradouro panorâmico.
Que vestígios arqueológicos posso visitar actualmente?
A zona arqueológica inclui muralhas da Idade do Ferro e romanas, fundações de casas do bairro mouro, cisternas, os alicerces do palácio real medieval (Paços da Alcáçova) e troços de calçada romana, acompanhados de painéis interpretativos.
O Castelo de São Jorge é um sítio classificado como Património Mundial da UNESCO?
O castelo não está individualmente inscrito, mas situa-se no centro histórico de Lisboa e é classificado como Monumento Nacional de Portugal, protegido pela legislação portuguesa do património desde o início do século XX.
Quem gere o castelo actualmente?
O local é gerido pela EGEAC, empresa pública de gestão cultural da Câmara Municipal de Lisboa, que também programa exposições, concertos e o mercado de Natal sazonal.